Criança
suja, criança saudável

Segundo
os psiquiatras e psicólogos infantis, "uma
criança que não brinca,
não é uma criança
saudável". Os pequenos necessitam
viver o caos para encontrar a ordem e
explorar o mundo que os cerca, um processo
no qual não costumam ficar muito
limpos, mas no qual começam uma
busca que os leva a consolidar sua identidade,
segundo os especialistas.
Para
os especialistas da Associação
Internacional pelo Direito da Criança
de Brincar (IPA, na sigla em inglês), "a
brincadeira é a atividade primordial
na infância de todo ser humano.
Através desta atividade se desenvolve
o amadurecimento, aprende-se, vive-se
o risco, cria-se e transforma-se a realidade".
Segundo
os especialistas, algumas atividades
lúdicas contrárias à higiene
como pular em poças d¿água,
caminhar pela lama, subir em árvores,
brincar com areia, remover a terra para
procurar insetos, descobrir "um
tesouro" ou deslizar sobre a grama,
fortalecem o sistema imunológico
das crianças, desde que não
representem perigo, certamente.
Eles
sustentam que a sujeira que tinge as
crianças da cabeça aos
pés quando brincam ou fazem esporte,
fortalece seu sistema imunológico,
aguça seus reflexos, melhora a
aprendizagem e favorece que interajam
com seus semelhantes. O ser humano cresce
cercado de agentes patógenos que
causam doenças, como os germes,
mas também ajudam o sistema natural
de defesa a se desenvolver de forma saudável.
Além disso, sujar-se é a única
forma com que os pequenos possam se concentrar
nos verdadeiros objetivos da brincadeira
e do esporte: explorar, sociabilizar,
aprender, concentrar-se, adquirir flexibilidade
e integrar-se, entre outros. O doutor
Richer reconheceu que até há pouco
reagia com uma rejeição
diante da palavra sujeira e sua mente
de especialista na saúde lhe dizia
que a falta de higiene era sinônimo
de doenças.
Ele
explica que os seres humanos sentem
uma natural repulsa
perante o sujo e
isso é ensinado para as crianças.
Mas "nem toda a sujeira é negativa,
e inclusive a necessitamos". "Para
conhecer as coisas necessitamos tocá-las",
defende Richer e isso é o que
fazem as crianças ao se aproximarem
do mundo, um lugar onde há terra,
barro, água suja. Inclusive existe
uma hipótese científica
segundo a qual aquelas crianças
que se relacionam com a sujeira desde
cedo desenvolvem mais defesas perante
as alergias e outras doenças.
E
mais: o efeito que causa na criança
não poder se sujar em sua descoberta
do mundo é maior, já que
assim "perde o benefício
da atividade, estará tão
preocupado de não se sujar que
não aprenderá a brincar",
afirmou o especialista de Oxford. Dado
que "nos desenvolvemos em um meio
ambiente sujo, necessitamos uma estrutura
orgânica para poder enfrentá-lo",
disse o professor Richer.
Um
dos mecanismos de defesa para consegui-lo
consiste em
evitar todo contato com aquilo
que contém elementos patógenos
e pode transmitir uma doença,
por meio do asco, uma emoção
que faz com que nos afastemos daquilo
que nos desagrada. Outro meio defensivo é o
sistema imunológico, que ataca
os agentes que causam infecções
e reações alérgicas.
Segundo
o especialista britânico,
sujar-se com terra do chão e estar
exposto a seus micróbios permite
que o sistema imunológico os "conheça" sem
desenvolver hipersensibilidade. Isto
se deve ao trabalho de células
defensoras, as células T reguladoras,
que sensibilizam ou tornam menos reativo
o sistema imunológico.
Além disso, cada vez que uma
criança tem contato com o meio
ambiente tem sensações
que, ao serem processadas, contribuem
para o seu crescimento intelectual. Mas às
vezes, os pais sustentam um falso conceito
do que é a sujeira, evitando que
os pequenos entrem em contato com a Natureza,
o que vai contra suas necessidades naturais.