Água
de beber não é mais a mesma

Foi-se
o tempo em que a água que a gente
bebia era "insípida, inodora
e incolor", como aprendemos na escola.
Hoje, para despertar a vontade de consumidores
sedentos por novidades, a indústria
tem se desdobrado para transformar até
esse líquido vital (e sem graça
para muitas pessoas) em uma bebida mais
atraente.
Depois
da versão mineral e gaseificada
em garrafas, a bebida ganhou ainda mais
diferenciais. As primeiras novidades a
despontar nas prateleiras foram as águas
saborizadas, como a Aquarius Fresh e a
Neutra. Tudo começou com um toque
de limão, mas agora já é
possível encontrar água
mineral com gosto de hortelã, laranja,
morango, maçã e até
pitanga.
A
Coca-Cola, fabricante da Aquarius Fresh,
com suco de limão, diz, por meio
de sua assessoria, que a intenção
sempre foi oferecer uma opção
para as pessoas hidratarem o organismo,
com mais prazer. A empresa teria lançado
o produto com base nos resultados de uma
pesquisa que constatou que, quando o líquido
tem sabor, a pessoa fica mais predisposta
a hidratar-se.
A
concorrência entre as indústrias
de alimentos e os avanços tecnológicos
estimularam mais duas ousadias nessa área.
A primeira foi o lançamento de
uma água com fibras (sim, aquelas
substâncias essenciais ao bom funcionamento
do intestino) - a Acqua Fibra, da Genuína
Lindoya. A idéia foi inspirada
em produto desenvolvido primeiramente
na China.
Já
a mais recente novidade no mercado é
uma água com baixo teor de sódio,
a Bonafont, da Danone. Segundo Eduardo
Gagliardi, diretor de Marketing de Águas
da empresa, o produto tem 0,34 mg/l de
sódio contra 35 mg/l de outras
marcas. O objetivo do produto, segundo
ele, é, além de hidratar,
diminuir o nível de sódio
do organismo. "Segundo pesquisa realizada
pela Danone, o brasileiro está
consumindo sódio acima das taxas
recomendadas, o que causa danos à
saúde", alerta.
E
o que os especialistas acham das novidades
Segundo
especialistas, ninguém deve ir
com muita sede às garrafinhas.
O nutrólogo José Ernesto
do Santos, da Faculdade de Medicina de
Ribeirão Preto, por exemplo, é
categórico ao afirmar que "a
melhor escolha é sempre água".
Ou seja, mais do que prestar atenção
na adição de compostos,
o que precisamos é beber mais água
- e, para isso, a convencional resolve
bem.
A
professora do curso de nutrição
da Pontifícia Universidade Católica
do Rio Grande do Sul (PUC-RS), Ana Feoli,
concorda e alerta:águas com sabor
não podem ser consideradas águas,
porque não tem só a bebida
em sua composição."Elas
têm sabor, aromatizante e, dependendo
da versão, adoçantes para
substituir o açúcar",
enumera.
Ana
Feoli compara as águas saborizadas,
contendo adoçantes, com os refrigerantes
diet. "Elas têm menos calorias
do que os refrigerantes convencionais.
Porém, como os adoçantes
têm sódio, essas águas
saborizadas contém mais sódio",
alerta.
O
perigo, segundo a professora Ana Feoli,
é as pessoas substituírem
toda a quantidade de água pura
que deveriam ingerir por essas águas
saborizadas. "Isso poderia aumentar
o nível de sódio do organismo
e, quando ocorre uma ingestão exagerada
dessa substância, há conseqüências
a curto prazo, principalmente para os
hipertensos", explica a professora.
O excesso de sódio pode aumentar
a pressão arterial e causar retenção
de líquidos, problemas renais e
até cardiovasculares.
Então,
uma água com baixo teor de sódio
seria uma boa opção? Não
é bem assim. Para a professora
Feoli, o problema maior não é
o sódio que consumimos com a água
e sim o proveniente de outros alimentos.
Ela alerta que estudos recentes indicam
que o brasileiro consome o dobro da quantidade
de sal (que vem do sódio) recomendada
para um adulto diariamente: de uma média
de 6 gramas por dia, consome-se 12 gramas.
"Grande parte vem de outros alimentos,
especialmente os industrializados",
comenta.
Já
em relação a água
com fibras, o endocrinologista João
César Castro Soares, da Universidade
Federal de São Paulo (Unifesp),
disse não conhecer o produto, mas
garante que as fibras dessa água
só podem ser hidrossolúveis
(aquelas que dissolvem na água).
"A questão é que, para
o intestino funcionar corretamente, o
organismo precisa de dois tipos de fibra:
a hidrossolúvel e a não-hidrossolúvel.
Não adianta só beber essa
água e não comer alimentos
com fibras não-hidrossolúveis,
como vegetais e cereais", acredita.
Classificação
A
legislação brasileira não
permite a denominação de
"água saborificada ou saborizada"
para produtos como o Aquarius Fresh e
o Neutra. Por esse motivo, eles podem
aparecer com descrições
como "água purificada adicionada
de sais", como foi o caso da Pure
Life, a água saborizada da Nestlé
que, devido a processos judiciais contra
a desmineralização da água,
deixou de ser comercializada no Brasil
desde 2005.
Algumas
indústrias, inclusive, não
vendem mais os produtos como água,
e sim como refrigerante. É o caso
da H2OH!, da Pepsi.