Quanto
vale a vida?

Admitir que nem
tudo é como gostaríamos que fosse
é uma coisa. Agora, não fazer nada
para que essa verdade não se torne absoluta
é completamente diferente. Nem sempre,
ou pelo menos na maioria das vezes, não
temos "poder suficiente para entender e aceitar
determinadas circunstâncias da vida. Mas
temos sim, a obrigaão de buscar aperfeiçoar
e digerir o que parece ser imutável e inaceitável.
Não se pode simplesmente cruzar os braços
diante da fatídica realidade, pois: "Para
que o mal triunfe, basta que o bem não
faça nada", disse Edmund Burke.
O que está
em questão é o fato, infelizmente,
consumado, de que não existem condiões
de trafegabilidade nas ruas de Cuiabá e
Várzea Grande. Está na hora de surgir
uma nova campanha, uma nova lei ou que se faça
cumprir as atuais, capaz de garantir a todo cidadão
conhecer esse perigo camuflado, esse inimigo enrustido,
essa ameaça constante que vem representada
ou pelo excesso de velocidade, ou pela falta de
respeito às normas de trânsito, e
ainda mais, pela imprudência e irresponsabilidade
de alguns motoristas.
Na
realidade, tornou-se já uma questão
de falta de educação. Não
a falta de respeito ao próximo, mas principalmente
consigo mesmo. Quanto será que vale a
vida daqueles que acham dirigir virou sinônimo
de voar? Que não existem distâncias
e nem pessoas a serem respeitadas? Que o tempo,
ou melhor, a pressa, deve falar mais alto do
que a garantia de chegar lá? Ou ainda,
que "os outros" (que possuem o mesmo
direito de ir e vir), devem esperar a meu bel-prazer
a decisão se verde é verde, ou
é vermelho?
Isso
é reflexo da falta de uma política
mais severa e fiscalizadora junto aos motoristas?
Sim. Mas a situaão não mudaria
de uma hora para a outra essa realidade deprimente.
Pois, mais do que aulas de boas maneiras, é
preciso conscientizar a populaão de que
o trânsito na grande Cuiabá e adjacências
tornou-se uma questão de cultura.
As
estatísticas comprovam que morrem todos
os anos mais de 40mil pessoas e outras 360 mil
ficam feridas, muitas com seqüelas permanentes.
Os recursos que são gastos na recuperação
dos feridos pela rede pública, nas indenizações
e nas perdas materiais alcançam valores
absurdos -cerca de R$10 bilhões por ano-que
poderiam ser aplicados, por exemplo, na construão
de 500 mil casas populares, suficientes para
atender uma população como a de
Vitória ou Florianópolis. E ainda,
mais de 90% dos acidentes no país são
causados pelas falhas humanas.
Ocorrem
pelo menos 723 acidentes por dia nas rodovias
pavimentadas brasileiras. A média é
de 30 por hora, ou um acidente a cada dois minutos.
Mas de 65 pessoas morrem por dia em virtude
desses acidentes. Se por acaso as vítimas
dessas tragédias fossem colocadas deitadas
no asfalto, seria praticamente uma pessoa por
quilômetro de rodovia, sendo um ferido
a cada 1.1000 metros e uma morte a cada 7Km.
A
única coisa na vida que o ser humano
ainda não descobriu nem através
da tecnologia, dos estudos avançados,
de testes científicos foi soluão
para a morte. E, mesmo assim, mesmo sabendo
que isso é inexecutável, alguns
brincam com ela como se vivessem num parque
de diversão. È absolutamente necessário
que a situaão das vítimas de acidentes
de trânsito sejam visualizadas não
somente pela ótica da dimensão
biológica, mas sim em sua totalidade
e abrangência das dimensões humanas,
existenciais e sociais em que o ser humano é
e está inserido.