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Opinião:

BBB traz à tona o milenário prazer do ‘voyeurismo’



     Você com certeza já ouviu aquele barulhinho estranho no quarto ao lado e sem querer (é claro) parou e colocou o ouvido na porta para escutar? Quem nunca deu aquela espiadinha pela fechadura do quarto dos pais? Isso que fez e a sensação que vivenciou vêem de hábitos antigos que remontam à época dos pergaminhos japoneses por volta do século VII. Há milênios o ser humano convive com o prazer de espionar a vida alheia sem ser visto. Essa ‘mania’ foi batizada pelo nome de voyeurismo.

     Hoje o buraco da fechadura não é mais tão embaixo assim. A mídia tem oportunizado de forma cada vez mais escancarada o acesso a essa prática. O programa Big Brother Brasil é um bom exemplo disso. Sem sair de casa qualquer um pode bisbilhotar a vida alheia. Seja através da TV ou com um simples toque no teclado do computador pode-se escolher acompanhar minuto a minuto os pormenores da vida dos jovens confinados.

     Assim também acontece com os milhares de sites que oferecem cada vez mais fotos e vídeos excitantes sobre a intimidade de homens e mulheres de todas as idades que foram captadas em sua maioria, pelas câmaras indiscretas.O programa Big Brother trouxe de volta ao vocábulo do povo brasileiro essa palavra de designação francesa que significa: a tendência obsessiva em observer o outro. O voyeurismo é mais fácil de ser identificado na fase infantil quando crianças, juntas ou sozinhas, buscam conhecer a si mesmo e ao sexo oposto na maioria das vezes através da espionagem.

A Visão da Sociologia

     Na visão do sociólogo Naldson Ramos, que também é coordenador do Núcleo Interinstitucional de Estudo da Violência e Cidadania pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), tudo aquilo que é público e comum não causa estranheza alguma ou curiosidade ao ser humano.

     “Tudo aquilo que é privado ou proibido esconde por si só um enigma que leva as pessoas a quererem saber daquilo que não as pertence ou não 'poderia' ser feito. E é lógico que jovens, com certos padrões de beleza, de diferentes lugares e culturas juntos e confinados resultaria ou num conflito ou numa afetividade e isso naturalmente mexe com a curiosidade das pessoas”, disse.

Brothers Tupiniquins

     Em sua oitava edição o BBB atrai milhares de brasileiros de todos os cantos do país, mas com algo em comum, a curiosidade em saber da vida de um grupo de pessoas que vivem 24 horas por dia sob o olhar indiscreto de dezenas de câmaras. Com média de 25 anos as celebridades instantâneas do país exercem profissões tão díspares num quadro inverso à realidade brasileira, em que a perspectiva de vida é de 71 anos, negros e pardos representam 45% do contingente populacional e a maioria das pessoas trabalham nos setores de serviços, na área agrícola ou no comércio em geral.

     Segundo dados do IBGE, o Brasil é um país em que a população oscila, cada vez mais, entre pessoas subnutridas ou com sobrepeso e exatamente na contramão o programa se apega à estética imposta pela da mídia, escalando integrantes de porte atlético, malhados e geralmente sem problemas aparentes.

     E, ainda assim, o BBB é chamado de “show da vida real” e cada vez mais pessoas são simpatizantes ao programa, ao novo jeito de fazer voyeurismo, não menos exagerado e nem menos perverso ao se vasculhar a intimidade de alguém e aceitar com tamanha facilidade que a ‘janela indiscreta’ se torne aos poucos um hábito também brasileiro.

O Poder da Mídia

     Voltando ao sociólogo os padrões sociais de vida adotados nesse tipo de reality show permitem a uma pequena parte da sociedade e não a maioria da população um aprofundamento maior sobre as questões pertinentes à humanidade. “Viver em sistema de confinamento, jovens de diferentes lugares e culturas por vários dias incita necessariamente ou num conflito ou afetividade. E isso passa a interessar ao telespectador porque a partir desse ‘lazer’, por alguns minutos ele consegue esquecer dos seus próprios problemas e viver uma vida ou um personagem que talvez ele na mesma situação não fosse assim”, analisa Ramos.

     Na visão sociológica, esse tipo de programa mexe com a vaidade, a beleza e o ego daqueles que participam, mas também, provocam o telespectador que se envolve seja positiva ou negativamente. “O ser humano há milhares de anos se realiza ou se contempla com a dor ou prazer do outro, desde que ele não esteja sendo visto nessa espionagem. Se alguém do BBB ganha um prêmio muitas pessoas comemoram, se algum deles tem que sair da casa os telespectadores votam com raiva de alguém por aquilo que ele fez lá dentro. E mais, as cenas de sexo, carícias e beijos sempre excitaram e continuarão a provocar a sexualidade das pessoas”, acrescentou.

O Reflexo

     A preocupação maior, segundo Ramos, é com relação ao futuro e a inversão de valores numa sociedade capitalista em que a audiência televisiva é rentável e reproduz exatamente aquilo que as pessoas querem ver: os esteriótipos. “Não podemos ficar alheios, a tudo que acontece ao nosso redor. Deixar de nos preocupar com a formação de valores e princípios como a solidariedade, o respeito às diferenças culturais, sociais e étnicas, pois, é isso que dá dignidade à vida humana. Mais do que se preocupar em cuidar da vida privada, a gente tem que olhar para o que é público, para o que diz respeito a nós mesmos, à nossa realidade.

     Muitas vezes programas como esses podem afirmar valores contrários a tudo aquilo que a família enquanto instituição esperaria que um jovem fizesse. “Adolescentes que vivem de Big Brother assistindo ao consumo excessivo de cigarro e de bebida ao certo acabam achando tudo isso muito normal e dentro da moda”, reafirmando que nada do que é vivido dentro de um BBB, por exemplo, está inserido no contexto da sociedade em que vivemos.


Alana Casanova
é jornalista em Cuiabá
alanacasanova@hotmail.com
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