A
história da house music

A House Music,
tem este nome, pois as primeiras festas onde
se tocavam este estilo de musica, eram em armazéns
americanos no final dos anos 70. Armazém
em inglês é warehouse ou, simplesmente,
house. Muitos dizem que o House Music é
uma vertente da disco music dos anos 70, pois
foram estilos de musica quase que contemporâneos.
Frankie Knucles é aclamado por muitos
como o "pai" da House Music, ele que
é um dos pioneiros deste género
juntamente com outros nomes como Tony Humphries.
Actualmente existem muitas sub-vertentes do
house, tais como: Funky-House, Tech-House, Disco-House,
Progressive-House, Acid House, Soulful House,
Neo-Jazz-House entre outros.
O elemento comum de quase toda a "house
music" é uma batida 4/4 gerada numa
bateria eletrônica, completada com uma
sólida (muitas vezes também gerada
eletronicamente) linha de baixo e, em muitos
casos, acréscimos de "samples",
ou pequenas porções de voz ou
de instrumentos de outras músicas. Representa,
de certa forma, também uma evolução
da disco music dos anos 70. A maioria dos projetos
(desenvolvidos por DJs e produtores) e grupos
de house music têm como origem a Itália,
a Alemanha, a Bélgica, além dos
EUA e Reino Unido.
Para podermos entender como surgiu este fenômeno
musical, temos que voltar alguns muitos anos
atrás, na década de 70. Isso mesmo,
as raízes da Dance Music estão
na Disco Music ou "Discoteca" e no
famoso som da Philadelphia. De início,
podemos dizer que se trata realmente de um fenômeno,
pois surgiu nos Estados Unidos, sem nenhum apoio
de rádios, atravessou o Atlântico,
foi parar na Inglaterra onde explodiu, mais
uma vez sem nenhum apoio da mídia, e
conquistou as paradas de sucesso de toda a Europa.
Começando do começo. O termo House
está relacionado à um antigo clube
chamado "The Warehouse", localizado
em Chicago (o berço do House). Neste
clube, havia um DJ chamado Frankie Knuckles,
que mixava velhos clássicos da Disco
Music (então vivendo um período
de decadência) com novidades do recém-criado
Synthpop, originário da Europa. Ele jogava
tudo junto, de Kraftwerk à Donna Summer,
passando por Telex, Depeche Mode, New Order,
OMD e etc... Mas ele não mixava, apenas.
Ele dava uma nova dimensão às
músicas com arranjos diferentes e batidas
mais aceleradas. Na verdade, Frankie era (é)
mais do que um DJ. Era um verdadeiro arquiteto
de som, que inovou completamente a arte de mixagem.
Hoje, ex-frequentadores assíduos do Warehouse
afirmam com convicção que a espinha
dorsal da atual cena dance estava nos velhos
clássicos "Philly" (de Philadelphia)
como as músicas de Harold Melvin, Billy
Paul, The O'Jays, mixados junto com Disco hits
e Synthpop europeu. Vale lembrar também
que, nesta época, entrava em cena uma
novidade tecnológica até então
desconhecida no mundo pop: a bateria eletrônica,
o principal instrumento da House music.
A virada dos anos 70/80, é muito subestimada
pelos críticos musicais, mas temos que
observar alguns fatos. A evolução
tecnológica deixava os laboratórios
para aterrisar em nossas casas. E alguns aparelhos
de última geração faziam
a alegria do consumismo capitalista: videocassete
"betamax", stereo system com duplo
deck, vídeogames Odissey e Atari, carros
cada vez mais modernos, Walkmans gigantescos,
computadores XT e por aí vai. E a evolução
surgia por todos os lados, não podendo
passar despercebida pelo mundo da música.
Nesse contexto, vejamos a pequena companhia
fabricante de instrumentos musicais Roland.
o lançamento de duas máquinas
conhecidas como TB-303 e TR-606 mudariam a música
como conhecida. A primeira era uma máquina
geradora de linhas de baixo (basslines) e a
segunda era uma bateria eletrônica, ainda
rudimentar. Aqui, podemos destacar uma mudança
filosófica fundamental da virada 70/80:
aquela velha concepção de união
e fraternidade típicas das pistas de
dança setentistas (como mostrado no filme
"Embalos de Sábado a Noite"),
era solenemente abandonada, dando lugar ao "faça
você mesmo", ou seja só eu,
e eu e meu umbigo. Assim, aquele guitarrista
que tinha horror em trabalhar com outras pessoas,
poderia ter um baixista e um baterista fazendo
exatamente o que o artista mandasse. Nada de
conflitos éticos e morais. A bateria
eletrônica da Roland vinha também
para suprir uma carência básica
da nova música que se anunciava: é
espantoso mas é fato que muitos bateristas
se recusavam a tocar compassos repetidos milhares
de vezes. Sendo assim, uma música só
de batidas 4/4 era veementemente recusada pelos
egocêntricos bateristas (que só
perdem em ego para os guitarristas). Sendo assim,
a Roland lançava a solução
para muitos (e desemprego para outros tantos),
pois disponibilizava uma máquina que
não tinha frescura em tocar este ou aquele
estilo musical. Mas dois fenômenos puderam
ser observados: 1º) A bateria TR-606 era
de certa forma "artificial" demais
para um músico mais purista, o que fez
com que o aparelho relativamente fracassasse
em vendagens. O que impulsionou um pouco a venda
do TR foi mesmo o TB-303, que tinha um dispositivo
de vínculo (uma espécie de MIDI
rudimentar) com a bateria eletrônica,
o que trazia uma grande facilidade para o músico
que trabalhava com sequenciadores. 2º)
Pode parecer ridículo, mas essas maravilhas
da tecnologia estavam muito a frente de seu
tempo, e não foram muito utilizadas na
época de seu lançamento, visto
que a música tinha regras pré-definidas,
e instrumentação eletrônica
não fazia parte deste cardápio.
A Roland, que não era boba nem nada,
decidiu investir nessa área, e lançava
máquina atrás de máquina.
Sintetizadores para todos os gostos (e, principalmente,
bolsos), e as drum machines evoluiam cada vez
mais. Esta evolução culminaria
no lançamento da bateria TR-909 (a máquina
fundamental do House) e o sintetizador D-50,
outra obra-prima que pode ser ouvida em quase
todas as primeiras gravações House.
O maquinário já estava quase pronto.
Só faltava uma coisinha: o padrão
de interligação de instrumentos
musicais "MIDI". Lançado em
1983, agora era possível ligar um monte
de sintetizadores e drum machines juntos e sincronizados.
Sem dúvida uma revolução
que será levada ao seu limite, com o
surgimento da Dance Music eletrônica.
Voltando ao Warehouse, podemos também
destacar a figura de um cara que era "cadeira
cativa" no lugar. Um jovem e misterioso
rapaz cujo estilo lembrava muito o histórico
George Clinton e que atendia pelo modesto nome
de "Professor Funk". Ele baixava na
pista de dança no início do baile
e só saia quando Frankie acabava de mixar
o último vinil. Também cantava
estranhas melodias (hoje conhecidas como Acid
House) como "Work your Body" e "Visions",
vestido como um rei inglês da idade média.
Era um homem de visão e sabia que aquele
som, mais tarde, iria dar origem a um produto
completamente diferente do atual. O Techno.
Agora, um pouquinho de filosofia. Na metade
dos anos 70, a Disco Music ainda era um fenômeno
"underground". Neste cenário,
pecado e salvação foram mixados
juntos criando um som mais ou menos decadente
e devocional, como uma reza, um lamento. Era
um tipo de Disco diferente do padrão,
e que foi amplamente explorado por selos de
Disco Music, principalmente de Nova York. Basicamente,
era um estilo que pegava a sonoridade da Philadelphia
e misturava tudo com vocais "Gospel"
de cantoras como Loleatta Holloway (as "Disco
Divas" que, mais tarde, seriam "House
Divas"). Neste momento, podemos verificar
as influências usadas pelos primeiros
House hits.
Para Frankie Knuckles, o House não é
um produto da Black Music, mas uma completa
re-invenção da Dance Music do
passado. O House era um liquidificador que misturava
pista de dança e igreja, jogando tudo
nos clubes, absolutamente sem nenhuma propriedade
religiosa. Na verdade, a religião sempre
esteve ligada às raízes do House.
A maioria dos DJ's de Chicago admitem uma "dívida"
para com os anos 70 e, particularmente, o original
"Disco mixer" Walter Gibbons, um DJ
que tornou populares as técnicas básicas
de mixagens e foi pioneiro ao traçar
o caminho do "Duplo Deck" para a produção
de estúdio. Estranhamente, durante o
apogeu da era Disco, o cara largou tudo e se
converteu novamente ao Cristianismo, voltando
à vida religiosa. Isso criou uma lacuna
que foi preenchida por outros "DJ's Produtores"
como Arthur Baker, François Kervokian
e Farley "Jackmaster" Funk.
Todos já encaravam Walter como uma lenda
da Disco Music. Então, o cara resurgiu
em 1984, justamente na "hora do parto"
da música House e, claro, causou um tremendo
impacto. Ele lançou um "12 polegadas"
independente chamado "Set it Off",
que criou um frisson no "Paradise Garage"
um reduto gay em Nova York, onde Larry LeVan
era o DJ residente. Em algumas semanas, a música
ganhou outras versões e inúmeros
remixes. Tecnicamente falando, "Set it
Off" soava como um house primitivo, contando
com batidas repetitivas (característica
do gênero), ideais para mixagens. Rapidamente,
a música se tornou um hino underground,
encontrando seu habitat natural em Chicago,
onde DJ's como Farley "Jackmaster"
e Frankie Knuckles detonavam nas pistas de dança
e, regularmente, nas estações
de rádio. O termo Jackin' tornou-se popular
entre os novos "clubbers" e pode ser
traduzido como dançar e absorver a música
como um todo, tornando-se 1 só.
A criatividade dos DJ's estava à mil.
Frankie pegava velhas gravações
como "Let no man put Asunder" (First
Choice), "Heat you Up (Melt you Down)"
(Shirley Lites), Eurobeats como Depeche Mode,
The Human League, BEF, Telex e New Order, mixava
com os discursos de Martin Luther King (imaginem!)
e o barulho de trens em alta velocidade, obtendo
uma sonoridade de outro planeta, pelo menos
para a época. E ele teve muitos discípulos.
Um deles, um jovem chamado Tyree Cooper ficou
impressionado com o fato de Frankie colocar
palestras de Martin Luther King nas mixagens.
Então, ele revirou a discoteca de sua
mãe e encontrou uma gravação
feita durante o sermão do reverendo local.
Ele pegou a gravação e fez a mesma
coisa que Frankie, criando uma moda entre os
DJ's de Chicago.
E não pára por aí! Tyree
se juntou á "DJ International Records"
e lançou mais uma música "I
Fear the Night", contando com os vocais
de uma estudante que fazia parte do coral da
igreja de sua mãe. Ela se chamava Darryl
Pandy e ainda participou dos vocais de uma das
músicas de Farley "Jackmaster"
Funk: "Love can't turn Around", que
alcançou o 1º lugar na parada Britânica.
Como podemos ver, o House teve suas influências
não só na Disco Music como também
no Gospel.
O sucesso mundial do House veio, contra todas
as previsões. Na época, Nova York
e Los Angeles eram as capitais musicais dos
EUA e não havia espaço para sucessos
regionais nas paradas. De acordo com os gurus
do House isto favoreceu a criatividade no início
do período fazendo com que os artistas
transformassem a pobreza de recursos em riqueza
musical.
Começaram a surgir vários selos
independentes. O primeiro foi o "Rock Jones
International", uma relativamente pequena
companhia que se transformou numa mega distribuidora
de gravações feitas por DJ e,
por consequência, um selo dance transnacional!
Neste ponto, em 1986, o House já era
um fenômeno mundial. Gravações
eram prensadas, uma atrás da outra, para
dar conta da demanda que surgia. Em alguns meses,
todos os meios de comunicação
ligados à música se curvavam diante
do fenômeno de Chicago. Lá, podemos
destacar duas rádios que faziam crescer
ainda mais o time de artistas: a WGCI e a WBMX,
que contavam com a presença regular do
"Hot Mix 5", um grupo de DJ's que
mixava Dance Music durante noites inteiras,
sem parar. Importante ressaltar também
o "Power Plant Club" que ficava aberto
todas as noites, de segunda à segunda,
carregando a tocha que foi do Warehouse.
Competições inevitáveis
entre "DJ International" e outros
selos começaram a aparecer. A mais importante
foi o selo "Trax" que acabou lançando
alguns dos maiores clássicos do House.
No Trax, podemos destacar a figura de Marshall
Jefferson que lançou, pelo Trax, dois
de seus maiores hits: o épico 120 BPM
"Move your Body" e a faixa "Ride
the Rhythm". Especialistas dizem que "Move
your Body" foi o hino da House Music. A
reputação de Marshall Jefferson
rivalizava com a de um certo Adonis, que lançou
o faixa "No way Back" que foi o segundo
maior sucesso do Trax vendendo mais de 120.000
cópias, um número absurdo, se
considerarmos que se trata de uma gravação
independente. Tanto Marshall como Adonis são
figuras importantíssimas da cena, tendo
sido fundamentais para o seu desenvolvimento.
Nesse momento, além do incrível
sucesso dos selos "DJ International",
"Underground" e "Trax",
haviam incontáveis selos menores (mas
não menos importantes) como "Chicago
Connection", "Dance Mania", "Sunset",
"House Records", "Hot Mix 5"
(do qual fazia parte Ralphi Rosario), "State
Street" e "Sound Pak". E, além
de Farley "Jackmaster" e Frankie Knuckles,
existiam muitos outros músicos como Full
House, Ricky Dillard, Fingers Inc. e Farm Boy.
O novo estilo começou a viajar pelo país,
aterrisando em Detroit e Nova York sendo alvo
das atenções de produtores importantes
como Derrick May (Detroit) e Arthur Baker (de
Nova York, que já conhecia um pouco da
novidade). Londres também absorveu muito
bem o House, sendo sua "segunda casa".
Lá, o produto vindo dos States caiu nas
mãos de um grupo de rapazes chamado M/A/R/R/S,
que alcançou as paradas britânicas
como um relâmpago com uma brilhante "colagem"
chamada de "Pump up the Volume". (falaremos
sobre colagens mais tarde). A música
atingiu o topo em questão de dias.
A partir daí, o House era de todos. Ele
se infiltrou na cultura latina e hispânica,
caindo como uma luva. Poucos estilos na história
são tão versáteis. E lá
estavam novamente os visionários Mario
Diaz, Ralphi Rosario, Two Puerto Ricans, Kenny
"Jammin'" Jason, entre outros para
conduzir o casamento House/Latinidad.
Mas, como nem tudo é criatividade, os
DJ's de Chicago começaram a se acomodar
na nova descoberta, fazendo com que ela começasse
a ficar um tanto repetitiva. Era fácil
identificar uma gravação proveniente
daquela cidade. A mesma batida, a mesma atmosfera...
Inevitavelmente esta situação
começou a mudar. Então, nos idos
de 1987, eis que surge uma nova tendência
no mundo da Dance Music, caracterizando o que
seria a "segunda geração
do House". Era um som mais profundo, mais
sofisticado (devido a todo o avanço tecnológico
na área da instrumentação
eletrônica), mais "cool", invocando
estranhas "imagens" e atitudes que
lembrava um indução por drogas.
Isso foi comprovado com o sucesso estrondoso
de uma música de um grupo chamado Phuture:
"Acid Tracks". Esta foi uma gravação
muito importante e serve como marco desta "nova"
tendência. E revelava um novo mundo clubber
em que o LSD e o Ecstasy (novidade na época)
faziam parte. Mas, segundo Frankie Knuckles,
"O House não é mais 'drogado'
que outras cenas".
Estamos agora na segunda geração
do House. Sobre o uso de drogas, nenhuma das
autoridades da cena House foi objeto de abuso
de drogas mas, estava clara uma certa influência
da música "Acid Tracks" (citada
acima), que levou o House a um estágio
mais avançado na sua concepção.
Era um certo futurismo, uma psicodelia que induzia
ao transe. Mas, os DJ's londrinos já
tinham um nome para essa "coisa":
Trance Dance. As raízes do Trance Dance
não podem ser encontradas no Rock psicodélico
dos anos 60 mas, ironicamente, na Europa dos
anos 70, através de músicas altamente
sintetizadas em instrumentos analógicos
como "Trans Europe Express" e "Numbers"
do Kraftwerk. O Trance Dance começou
a se estabelecer em Chicago como o futuro do
House.
Com a segunda geração, veio a
explosão em nível mundial. Em
Londres, rádios piratas exploravam o
verdadeiro potencial do House. A ética
"faça você mesmo" da
música atraia jovens DJ's munidos de
equipamentos baratos e que construiam verdadeiras
pérolas, desafiando a dinâmica
das grandes gravadoras, sendo sempre mais rápidos
que elas. Selos britânicos independentes
tomavam as paradas de surpresa, ficavam 1 ou
2 semanas e desapareciam, mostrando o forte
apelo comercial que reinava nas mentes dos artistas.
Durante a primavera de 1988, um grupo de DJ's
londrinos levou suas pick-ups para dentro dos
estúdios. Aqui, surgem duas figuras fundamentais
para definir a segunda geração:
Tim Simenon e Mark Moore. Tim Simenon era nada
mais nada menos que a pessoa por trás
da organização Bomb the Bass,
que era seu pseudônimo e o selo para o
qual trabalhavam os outros artistas ligados
à ele como Pascal Gabriel e a vocalista
Maureen Walsh. O Bomb the Bass foi pioneiro
no uso de outras fontes na construção
das músicas, como comerciais de TV, seriados,
filmes de cinema, sons de outras músicas,
etc... caracterizando o que chamamos "Colagem"
(lembra quando falamos sobre elas lá
atrás?). A música "Beat Dis"
foi lançada logo depois do marco "Pump
up the Volume", alcançando um enorme
sucesso nas paradas britânicas. Já
Mark Moore usando o nome S-Express teve uma
incrível repercussão com "Theme
from S-Express". Resumindo: DJ's com enormes
coleções de discos e um grande
conhecimento de breaks, beats, bits e outros
sons juntavam tudo num caldeirão, mexiam
tudo, serviam nas rádios (principalmente
as piratas) e conquistavam o paladar dos "gourmets"
da música.
Estamos, agora, no verão de 1988, o "Summer
of Love", onde o bonequinho "Smiley"
se tornou o símbolo oficial da cultura
House. Este verão foi o mais marcante
para a Dance Music, pois definiu completamente
os rumos que esta tomaria. Eis que surge, então,
o Acid House. O Acid começou a tomar
as paradas com sua nova filosofia de vida. O
termo "Acid" está diretamente
ligado às drogas e ácidos que
habitavam (e vão habitar sempre) as noites
de dança. Isto foi o bastante para que
os tablóides e revistas especializadas
começassem uma verdadeira histeria em
relação ao termo e, pior, ao tipo
musical. Diariamente, crescia a fobia, que culminou
na estilização do termo como um
verdadeiro palavrão! Músicas como
"We Call It Acieeed" de D. Mob alcançavam
sempre os primeiros lugares nos "charts"
ingleses e suas frases típicas começaram
a fazer parte da conversação diária
dos jovens ingleses. Quando esta música
atingiu o primeiro lugar, as rádios (inclusive
a BBC) se recusavam a tocar a dita música,
ignorando os insistentes pedidos dos ouvintes.
O ponto alto da discussão foi um debate
nacional, promovido pela rádio BBC, discutindo
a aceitabilidade da nova onda. Resultado: a
condenação da música e
do "Smiley".
Enquanto os ingleses discutiam o sexo dos anjos,
na Ámerica, a criatividade e o talento
continuavam a render bons frutos. Um deles se
chamava Todd Terry, um jovem vindo do Brooklyn
que acabou se tornando um dos papas da Dance
Music. Todd é um filho do House, tendo
passado boa parte de sua adolescência
dentro de clubes, absorvendo todo seu encanto
e sua cultura. E a próxima década
prometia muito ao jovem Todd, em sua jornada
pelos ritmos dançantes. Seus então
futuros trabalhos com cantoras como Martha Wash,
Jocelyn Brown e Shannon (1996/98) provam toda
a sua habilidade em misturar sonoridades antigas
(Disco, Break, etc...) com a modernidade tecnológica
dos instrumentos digitais.
Os anos 90 trouxeram a glória para o
House e sua fragmentação em diversos
caminhos, todos levando a um lugar comum. No
início da década podemos acompanhar
o surgimento do Eurodance e seus maiores expoentes
como Technotronic, 2 Unlimited, Culture Beat,
Snap e outros. O House propriamente dito estava
sendo carregado por artista como Black Box,
Inner City, Lee Marrow, C+C Music Factory e
The KLF, que eram presenças constantes
nos Top 10's da vida. E surgia também
uma nova concepção artística:
a descartabilidade. Na época, alguns
grupos apareciam do nada, colocavam um hit no
ar e, depois, voltavam para o nada. Os períodos
variavam de 6 meses à 1 ano. Só
para comparar, hoje (ano 2000), um artista techno
costuma aparecer nas paradas, ficar 2 semanas
e, depois, desaparecer completamente. É
a era da descantabilidade. Para uns, isso é
bom pois mostra que a Dance Music está
sempre se renovando, ao contrário do
Rock. Para outros (como eu), isso não
é tão legal, porque sempre nos
apegamos a determinado artista e acabamos querendo
saber mais sobre ele. No fim das contas não
ficamos sabendo nada!
Vindo também como uma herança
dos anos 80, temos o trio Stock, Aitken e Waterman,
produtores que dominaram a cena House à
partir de 88 e seguiram até mais ou menos
95. Suas obras incluem artistas como Kylie Minogue,
Rick Astley e Jason Donovan, e trabalhos com
artistas já renomados como Donna Summer
(diva Disco que pegou uma "carona"
no House) e Bananarama (avós das Spice
Girls). Seus últimos trabalhos (com as
cantoras Serena, Tatjana e Nicki French) bombaram
as pistas de dança até 1996. Depois,
sumiram das paradas.
Paralelamente, um estilo seguia sempre "à
sombra" do House: o Techno. O Techno não
interessava muito às grandes gravadoras
por não ter apelo comercial (segundo
elas) e estar voltado à um público
mais dirigido (clubbers). E, enquanto o House
bombava as paradas, o Techno bombava as pistas
e já dava sinais de desmembrameto em
outras vertentes ainda mais bizarras como o
Jungle, Drum'n Bass e, o mais "estranho"
(e legal): o Trip Hop, que reune elementos do
Hip Hop com Bossa Nova e toda uma ambientação
teatral. São músicas para se ouvir
no escuro e meditar...
Basicamente e tecnicamente falando, o Techno
era diferente do House por ter uma batida mais
acelerada (voltada quase que exclusivamente
para as pistas de dança) e uma certa
ausência de vocais (praticamente fundamentais
ao House). Isso causava estranheza nas pessoas
e a rejeição das grandes gravadoras,
fazendo do Techno um produto completamente "undergound"
que ninguém sabia definir, ao certo.
Isso só começou a mudar pelos
idos de 1996, com o surguimento de centenas
de gravadoras alternativas e de grupos como
Underworld, Daft Punk, Robert Miles, The Crystal
Method, etc... Também temos o fato de
artistas renomados como Everything But the Girl
e U2 aderirem à sonoridade disforme do
Techno, transformando sua música já
consagrada e levando-a à novas dimensões.
Em 1997, chegou a hora! O Techno invadiu a Europa
e América, transformando, mais uma vez,
suas paradas de sucesso.
Tivemos neste ano, na minha opinião,
os melhores lançamentos musicais da década,
onde incontáveis artistas assumiam uma
identidade nova, adicionando a música
eletrônica ao seu repertório. Depeche
Mode, Duran Duran, Tori Amos, Ultra Naté
e Erasure são apenas alguns exemplos.
Pronto! o Techno já era mídia.
E tome coletânea de "Techno farofa",
artistas querendo copiar outro, samples descarados,
e batidas manjadas. Mas, enquanto as gravadoras
enchiam os bolsos de grana a custa dos "Orbital's"
da vida, a comunidade clubber já estava
em outra...
A essa altura, o BPM já ultrapassava
os 150. E surgem com toda força o Trance
e o Drum'n Bass. O Trance era dedicado aos orfãos
do House e Techno underground e faziam a alegria
dos eternos e incansáveis clubbers, que
pulavam e se "extasiavam", se é
que vocês me entendem.
1999 foi o ano em que o Trance explodiu mundialmente
como o som do século XXI. É claro
que a música Pop precisava adotar essa
sonoridade e, mais uma vez tal como o House
e o Techno, o Trance vira Pop. Trance Pop é
um produto de venda. Aqui, temos Alice Deejay,
Paul Van Dik, ATB, Chicane, Sash! e etc... Mas
isso não desmerece a música, que
tem uma sonoridade alegre e melodias que todo
mundo sai cantando. Resumindo, para tocar em
rádio.
Mas e o House? Nesta altura, o House também
evoluia. E podemos ressaltar uma pequena inversão:
as gravadoras descobriram o filão que
era o Techno e acabaram deixando o House meio
de lado, visto que este já dava sinais
de desgaste. O Eurodance também continua
sua jornada, só que mais na Europa do
que no resto do mundo. Mas, a sonoridade mudou
muito pouco (ainda bem!) e seu lugar no velho
continente já está mais do que
garantido!
Mas, graças aos DJ's, o House continuou
sua eterna mutação, tornando-se
diferente e mais underground, retornando ás
raízes. Hoje temos artistas que retratam
bem o espírto House de experimentalismo
e improvisação, como Moloko, Basemment
Jaxx, Eiffel 65, Avant Garde, Orbital, Daft
Punk, Paths and Small, Gala, David Morales,
Vengaboys e muitos outros. Vale lembrar que
muitos dos artistas citados produzem seus álbuns
EM CASA, em seus quartos. Nada de revestimentos
acústicos caríssimos e aquela
parafernália de estúdio (caso
do Daft Punk). E, provavelmente, esta evolução
nunca vai parar. É provável até
que este texto, daqui à alguns dias,
esteja desatualizado. Mas, não seria
este o verdadeiro espírito da Dance Music?