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Último militar eleito presidente do Brasil por voto direto foi escolhido há 73 anos e era cuiabano

Postado em: 30/10/2018 09:53:34

Um militar é eleito presidente do Brasil com pouco mais de 55% dos votos após disputa que envolveu proliferação de notícia falsa, transferência de apoio do maior líder político que não pôde participar do processo eleitoral, em um caldo cultural que se formou em uma onda de anticomunismo e pautas de cunho moral. Estamos falando de 2018 ou 1945? São semelhanças que aparecem em um oceano de diferenças que separam a vitória de Jair Bolsonaro (PSL) do último presidente militar eleito por voto direto: o cuiabano Eurico Gaspar Dutra, em 1945.

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Em janeiro de 2019, Bolsonaro será o 10º militar a assumir a Presidência do Brasil, dando continuidade a uma história que começou a se escrever com Marechal Deodoro da Fonseca (1889-1891), militar que se tornou proeminente na Guerra do Paraguai (1864-1870), teve papel central na Proclamação da República e foi o primeiro presidente do país após a queda da Monarquia. Pelo voto popular, além de Bolsonaro e Dutra, também ascendeu ao poder o Marechal Hermes da Fonseca (1910-1914), sobrinho de Deodoro, que derrotou ninguém menos que Rui Barbosa. Representante da situação na República Velha, Hermes não teve grande dificuldades para superar o candidato da oposição em um sistema eleitoral nada confiável.   
 
Mas voltando aos últimos militares eleitos no voto popular. Se desta vez o líder com maior capital político (e também rejeição) do país, Luis Inácio Lula da Silva, esteve do lado do candidato derrotado, Fernando Haddad (PT), e transferiu o quanto pôde seus votos, contaminando-o também com a aversão que parte do eleitorado nutre por sua figura, em 1945 Dutra contou com as bases conquistadas por Getúlio Vargas.
 
Há 73 anos, o Brasil enxergava um horizonte democrático após 15 anos da Revolução de 30 que depôs Washington Luis e conduziu ao poder Getúlio Vargas. Dutra era aliado do ex-presidente, foi seu ministro da Guerra, mas também esteve presente na deposição do Vargas, após suspeitas de que ele não deixaria a Presidência como o anunciado. Maior líder político vivo no país à época, Getúlio relutou antes de declarar apoio ao sucessor. A poucos dias da eleição, Vargas acabou manifestando apoio e Dutra liquidou a fatura.
 
Anticomunismo e “fake news”
 
Dutra era um militar anticomunista. E naquela eleição, não importa o vencedor, o presidente acabaria sendo um militar anticomunista. Do outro lado, estava Brigadeiro Eduardo Gomes, que tinha bandeiras semelhantes ao rival. O que lhes separa, na prática, era o getulismo de um e o antigetulismo do outro. Candidato pela UDN, partido com forte ligação com classe média urbana, o Brigadeiro era muito católico e mais identificado com as elites que o cuiabano. Para ajudar na campanha, em tempos em que redes sociais era inimagináveis, senhoras tradicionais ajudavam-no vendendo doces feitos com chocolate e leite condensado. Daí o nome do brasileiríssimo brigadeiro.
 
Mas não era por falta de redes sociais que não existiam o que chamamos hoje de “fake news”. Dutra aliás, se beneficiou muito com uma. Semanas antes da eleição, em discurso no Teatro Municipal no Rio, Eduardo Gomes declarou que dispensava votos do que classificou como “desocupados que apoiam o ditador”. A versão espalhada exaustivamente nas rádios, veículo de massa da época, foi a de que o Brigadeiro declarou que não precisava dos votos dos “marmiteiros”, o que seria uma crítica aos trabalhadores, que comiam marmita, a camada popular mais próxima de Getúlio Vargas.
 
Dutra usou tão bem a “fake” da marmita, que virou até jingle em sua campanha. Confira abaixo as músicas dos dois candidatos:
 

 
Figuras caricatas 
 
Se o tom de voz sempre impositivo, a língua presa e o famoso “ta ok?” ao final das frases de Jair Bolsonaro são um prato cheio para humoristas e imitadores hoje em dia, nada se compara aos problemas de dicção de Dutra. A historiografia sempre ressalta seus problemas de comunicação. Não é fácil encontrar gravações de discursos do único cuiabano que chegou à Presidência da República.
 
Conta Lira Neto na primeira parte da extensa biografia de Getúlio Vargas que publicou pela Companhia das Letras, que Getúlio e Dutra tiveram o primeiro contato em 1902, na Escola Militar do Brasil (de onde Vargas terminou expulso por indisciplina). Dutra, que era calouro do gaúcho, passou por todos os tipos de trotes, violentos ou não, aplicados à época. Um especial em o exasperava. Getúlio exigia que o novato narrasse em detalhes a longa viagem que precisou fazer de Cuiabá até o Rio de Janeiro. A resposta, em tom de queixa, soava parecida com: “Voxê xá conhexe exa hixtória, Xetúlio”.
 
Figura franzina, que precisou falsificar documento para parecer mais jovem e ser aceito no Exército, Dutra teve carreira militar exemplar. Seu único “desvio” aconteceu em 1904, quando ainda estudante da Escola Militar participou da Revolta da Vacina. Expulso do Exército, conseguiu anistia. Jair Bolsonaro também tem histórico de indisciplina com a farda. Um dos casos foi a publicação de um artigo em que reclamou de baixos salários nas Forças Armadas. O outro envolve suposto plano que previa a explosão de bombas em quartéis e outros locais estratégicos no Rio de Janeiro (entenda aqui).


Eurico Gaspar Dutra em visita à Casa Branca, posa ao lado do então presidente americano Harry Truman. Governo foi de aproximação com os americanos. (Foto: Memorial da democracia).

O governo de Dutra foi marcado por um alinhamento com os Estados Unidos, em um momento de início da Guerra Fria e da “ameaça comunista”. Foi durante sua gestão que o Partido Comunista voltou a ser colocado na ilegalidade e o país rompeu com a União Soviética. Na esteira de uma política moralista, Dutra também proibiu os cassinos no Brasil, em 1946.
 
Fortalecimento da democracia e o pouco espaço na ditadura
 
O legado que Dutra deixou para o Brasil foi a garantia, durante seu governo, da elaboração da Constituição de 1946, a quinta brasileira, quarta da história republicana e a mais democrática até então. Pensado em um contexto político pós-guerra, o novo texto afastava as inspirações fascistas da anterior, criada por Getúlio durante a ascensão das Potências do Eixo. Na condução da economia, Dutra teve tropeços e não conseguiu uma melhora na qualidade de vida da maioria dos brasileiros, o que acabou por trazer novamente um clamor popular por Getúlio Vargas, que voltou ao poder por meio do voto e só deixou o Palácio do Catete com um bala no peito e um discurso póstumo deixado em carta-testamento.
 
Já marechal, Dutra apoiou o golpe de 1964 e chegou a disputar, dessa vez por voto indireto, novamente a Presidência da República. Acabou derrotado com somente dois votos diante de 361 Humberto de Alencar Castello Branco (1964-1967), primeiro presidente do novo regime. Pelo voto indireto, os militares ainda conduziram ao poder Arthur da Costa e Silva (1967-1969), Emílio Garrastazu Médici (1969-1974), Ernesto Geisel (1974-1979) e João Figueiredo (1979-1985).
 
Com a redemocratização e a condução do poder para os civis, o Brasil viu a eleição indireta e a morte de Tancredo Neves antes da posse e o governo José Sarney. Assistiu a ascensão e queda de Fernando Collor, um governo tampão de Itamar Franco, a volta da estabilidade econômica, duas vitórias em primeiro turno de Fernando Henrique Cardoso, quatro vitórias consecutivas do PT, duas de Lula e duas de Dilma Roussef, sendo o segundo governo mandato dela interrompido por um impeachment.

O atual presidente Michel Temer teve um governo marcado pela tentativa de recuperação econômica e escândalos de corrupção. Em janeiro, passará a faixa presidencial ao sucessor, que se elegeu prometendo moralizar a política, acabar com a corrupção e livrar o país do risco do comunismo. Sua primeira medida, garantiu após a vitória das urnas, será enviar ao Congresso Nacional mensagem que altera a atual política de porte de armas no país.  

Fonte: www.olhardireto.com.br
 

 
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