O
lado alto do lago

Todo fim de ano
as pessoas se vêem fazendo as mesmas coisas,
na maioria das vezes nos mesmos lugares, com
as mesmas pessoas e definitivamente, fazendo
as mesmas promessas. Como se o tempo não
passasse e não tivesse influenciado na
vida de cada um.
Por
medo de ousar, de mudar, de conseguir sair -
muitas vezes do estado de inércia em
que se encontram deixam as melhores coisas,
ou fases, da vida passar. Isso incluindo as
pessoas especiais e únicas que muitas
vezes não são mais, e sim foram!
Nenhuma
verdade é absoluta, mas uma delas se
aproxima desse provérbio: o que o tempo
não pára, não volta. Conseqüentemente,
o mundo não gira em torno da sua vida,
nem da de ninguém. Isso justifica cada
vez mais o individualismo e auto-suficiência
das pessoas consigo mesma, a certeza de que
as atitudes e escolhas dependem muito mais de
cada um do que do tempo ou do espaço
em que se vive ou está.
Se
as dúvidas, as incertezas, as questões
mal-resolvidas, as necessidades, são
sempre as mesmas, por que então fazer
as mesmas promessas? O que será que vai
mudar de um ano para o outro? Além do
tempo é claro! É preciso muito
mais do que fazer uma auto-análise das
ações e palavras, e sim, conhecer
a si mesmo.
Frases
como: “nunca deixe para amanhã
o que se pode fazer hoje”, deveria sair
da mente das pessoas, do simples falar, e passar
a ser a prática de cada um, o que muitas
vezes exige que paradigmas da sociedade sejam
quebrados.
Alexandre
Cavalvanti descreve momentos simples da vida,
do cotidiano e que muitas vezes passam despercebidos
em meio a tanta correria em que se encontram
as pessoas, como forma de chamar e realmente
vivê-los. Reconhecer que momentos não
apenas existem, mas fazem toda a diferença.
E antes que seja tarde demais é necessário,
que se faça, se diga, se aja, que sejamos
donos da nossa própria história
e não meros espectadores.
Por
exemplo, por que só no natal dá
tempo para pensar em ajudar o próximo,
dar uma cesta básica a famílias
carentes, fazer um trabalho voluntário,
uma doação de sangue? Sendo que
durante os outros 364 dias do ano as pessoas
possuem as mesmas necessidades e carências.
Por isso a ressalva: as promessas são
sempre as mesmas, e por isso talvez nunca se
conseguirá cumpri-las. A menos que se
abra mão de muitas coisas, muitos tabus,
de todo egocentrismo, de interesses pessoais,
dos parâmetros existentes por osmose em
nossas vidas, de mitos, de regras mal-estabelecidas,
da inversão de valores gritante na sociedade
de hoje.
Do
lado alto do lago, longe do escritório,
da sala de aula, de casa, dos amigos, do convívio
social, da internet, do celular, da prisão
que criamos e nela vivemos, se torna possível
rever conceitos e analisar de outra maneira
as mesmas coisas.
Um
dia basta para que essa busca interior seja
feita como a forma mais eficaz de enxergar e
compreender o mundo lá fora, além
do nosso reles horizonte. Sem dúvida,
depois de estar do lado alto do lago, qualquer
ser humano voltaria mais fortalecido para viver
no mundo que o próprio Homem “criou”
e não mais suporta estar.
O
nosso habitat natural, tão medíocre,
com tantas armadilhas, tantos medos, defeitos
e erros, e que hoje se tornou uma incógnita,
difícil de entender e mais ainda de aceitar,
felizmente ou não é nossa própria
obra-de-arte.